Sobre gente que começa a namorar e some

Tenho um amigo que se tornou uma figura extremamente rara depois que começou a namorar. Tão rara que atropelar um Lobo-guará fumante fantasiado de pônei na Paulista me parece mais provável do que a presença dele em meu próximo aniversário. O cara evaporou, é sério. Desfalcou nossa pelada de segunda-feira. E nas pouquíssimas vezes em que dá o ar da graça, geralmente de passagem e com expressão de “tô atrasado”, está com a namorada – e não a larga por nada neste mundo. Não a solta, para ser mais preciso. “Eu vou pegar uma cerveja para mim, você quer?”, a moça perguntou certa vez, numa festa junina, já se dirigindo ao bar. E ele, o amante-carrapato, falou: “Eu vou junto, não precisa”.

Alguém, por gentileza, pode informá-lo de que dá para namorar sem ser um gêmeo siamês daquela por quem o coração dele acelera? Se há algum ser com bom poder de persuasão por aí, do outro lado da tela, peço que me ajude a fazê-lo parar de levar a expressão “vida a dois” ao pé da letra, como se não existisse mais motivo para manter o mínimo contato com a vida existente fora da órbita do casal. Porque nós, os parças que ele vive a renegar, já tentamos de tudo. Para ter uma noção, já até pensamos em sequestrá-lo. Mas nada nos pareceu eficiente o bastante para fazê-lo compreender que é possível – e bem importante à relação – dividir a existência com a namorada e, ao mesmo tempo, ter momentos sem ela – sem traí-la ou deixá-la na mão, vale ressaltar.

Já pensei bastante na razão deste grude todo, acredite. E após muito matutar – e me dar conta de certos comportamentos recorrentes – concluí que não se trata de excesso de paixão embriagante, como no começo cheguei a cogitar. Sabe qual o principal motivo pelo qual meu amigo não sai de perto da namorada? Falta confiança, tá na cara. Falta de confiança nele, nela, no relacionamento… Há um nítido sentimento de insegurança que ele só consegue controlar quando ela está ao alcance da visão dele, e que o faz evitar sair sem ela para deixá-la desconfortável nas vezes em que ela pensa em sair sem ele. Sacou o ciclo vicioso e sufocante que ele tenta impor? “Eu não saio nunca sem você, ou seja, você também não precisa sair sem mim!”. Mas precisa, ô se precisa! Todo ser humano precisa, afinal. Pois viver à sombra de um só ser, girando ao redor dele e de mais ninguém, é uma ótima receita para acabar no tédio – independente do tamanho do seu carinho por ele.

Se seu amor mora na Islândia e só ficará na mesma cidade que você por uma semana, faz todo sentido colocar o celular no modo avião e se trancar com ela num quartinho de motel à prova de bombas nucleares. Todo mesmo. Em caso de relações nas quais não há hiato geográfico iminente ou outra razão lógica que justifique a vontade de não dividi-la com mais ninguém, porém, sugiro que considere a importância de momentos sem a participação ela – e vice-versa, óbvio. Vou além: incentive a sua parceira a sair sem você caso note que ela está se fechando às amigas e a outras pessoas com quem, antes de você aparecer, costumava manter relações de amizade e benéficas. Não a deixe cair na besteira de achar que pode se nutrir apenas de você. Pois não pode.

E se ela resolver trai-lo? Então você acha que ela vai decidir chifrá-lo só por causa da liberdade que está pensando em dar? Acredita mesmo que mantê-la quase algemada a você é o melhor a fazer para evitar perdê-la? Aliás, se seu medo é ficar sem ela, o melhor que pode fazer é ser um peito confortável e de portas sempre destrancadas a ela, pois não há motivo melhor para que alguém queira voltar. Não acha? Ou acha que ser moço-prisão é um incentivo para que alguém queira permanecer?

Além disso, relacionar-se, grosso modo, é dividir a sua vida com a vida de alguém. Ou não é? Sendo assim, você precisa alimentar a sua individualidade – ou não terá nada para compartilhar/oferecer, apenas vazio e mesmice. Compreende? Fundir sua vida à vida de alguém, de um jeito que matará as impressões digitais de ambas, é o pior que pode acontecer, acredite em mim. O “nós” é importante, claro que é, pois demonstra que estão juntos para o que der e vier. Mas não deixe seu “eu” morrer e, obviamente, não tente matar “eu” de ninguém.

Com muito carinho e respeito faça com que ela o considere um ser único, especial. Mas, por favor, não tente ser a única coisa da vida dela. Não limite nem pode: regue, adube, some, agregue, amplie, incentive, dê asas…

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Ricardo Coiro

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