Sem ela a cama fica quilométrica

Antes de dormir, eu sempre preparo dois copos de vitamina C: um para mim e outro para a moça por quem sou apaixonado. Trata-se de um hábito que começou no dia em que passamos a viver sob o mesmo teto, há quase uma ano. Na última semana, porém, a tradição foi quebrada: só fiz um copo vitaminado por noite; e tal desvio na rotina não rolou por escassez de Cebion no bairro ou por ela ter me convencido, finalmente, de que já é bem grandinha e sabe se cuidar. Nada disso! A redução no uso de ácido ascórbico ocorreu porque ela está viajando a trabalho, ralando e “frevando” lá pelas bandas de Recife, longe o bastante para que os centímetros da cama – por muitas madrugadas disputados a bundadas e resmungões sonolentos -, agora, pareçam-me um exagero, quilômetros mal aproveitados de colchão e falta de pernas.

Aliás, já que o assunto é cama, eu preciso fazer uma confissão: não a arrumo desde o dia em que minha namorada relou de leve os beiços em minha testa e, quase sem soltar a voz, afirmou que voltaria logo, jurou que a semana seguinte voaria e me pediu para cuidar bem dos gatos. Tô dormindo num bololô só, sobre uma suruba composta por lençol sujo de Danette, travesseiro sem fronha, edredom com pelos de gato, controle da TV e da Net, livro no qual estou estacionado desde fevereiro… E quer saber? Apesar de achar que alisar roupa de cama é uma perda de tempo, um verdadeiro chute no saco, eu não vejo a hora de vê-la arregalando os olhos e, com cara de mãe severa, perguntando-me: “Um furacão passou por aqui?”. Estou contando os minutos para retomar a minha rotina normal e, por ela – só por ela! -, voltar a arrumar a cama entre primeiro – e infinito – xixi do dia e o avocado amassado com sal, azeite e limão que aprendi com alguma blogueira fit.

E não é só por saudade que eu anseio pelo volta dela, não. É uma questão de saúde também: eu que sempre tento preparar um jantar saudável – ricos em fibras, multicolorido e sem a presença de frituras -, na ausência dela, sobrevivi à base de pão vencido com queijo e peito de peru, bananas e pizzas. Fato que me fez chegar a uma conclusão interessante: apesar de cozinhar para nós, eu cozinho mesmo é para ela, por saber que, antes de mim – ou quando não estou -, ela não cuidava da alimentação (mantinha uma dieta muito parecida com a minha dieta junkie dos últimos dias, ironicamente).

A viagem dela também me fez valorizar uma liberdade muito legal e evidente em minha relação: diferente de alguns amigos que se transformam em adolescentes malucos e despirocados quando as namoradas estão longe, no final de semana passado eu fiz programas bem parecidos com aqueles que costumo realizar quando ela está por perto: tomei cerveja e comi hambúrgueres com um camarada das antigas, assisti ao UFC dando rolamentos e chutes no ar, dei rolê a pé e contemplativo na Paulista, passei horas procurando tesouros num sebo da Liberdade…

É óbvio que senti falta dela reclamando do verão fora de época, perguntando se pode devorar minha batata frita e espreitando os acompanhamentos dos meus cafés, no entanto, sentir saudade das atômicas belezas da convivência é muito melhor do que sentir medo de tomar bronca por WhatsApp ou necessidade de mentir para evitar desgastes – como já aconteceu comigo em relações nas quais a pior parte dos hiatos era a falta de confiança que eles evidenciavam e as caraminholas que derivavam dela.

Sabe o que é? Tô sentindo falta dela. De verdade. Falta do cafuné sonífero e da massagem demorada no pé que eriça os cabelinhos da nuca. Falta de, numa segunda-feira qualquer, fazer mingau de aveia para nós e, em seguida – entre “O seu mingau é o melhor do mundo” e “Cuidado para não sujar o lençol!” -, brincar de ser jurado do The X Factor com ela. Falta de esperá-la, ansiosamente, para soterrá-la com as novidades sobre meu novo livro e catástrofes do meu dia. Falta das caretas que ela faz para o meu arroz integral e de ouvi-la me pedindo para ficar no banheiro, batendo papo, enquanto ela toma banho pelando e faz com que eu me sinta numa sauna. Falta de separar, todo noite, uma maçã e um iogurte para ela levar ao trabalho no dia seguinte. Falta de fingir que estou dormindo enquanto ela se arruma pisando leve, no escuro, tentando não me acordar.

Falta que me faz ter certeza de que fiz a escolha certa quando decidi compartilhar, com ela, as despesas do lar e as banalidades deliciosas desta existência fugaz.

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Ricardo Coiro

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