Meu vizinho Ricardo

Não, este não é um conto adulto sobre um vizinho exibicionista e pirocudo. Sinto muito se usei este título e imagem provocante para atrair sua atenção tarada. Sorry. Mas agora que a fisguei, peço que fique na linha, que não saia desta janelinha, pois, neste texto falarei sobre o mar de influências que nos torna o que somos hoje; a respeito de pessoas, músicas, garfadas e outros paranauês com os quais cruzamos pelo caminho que, de alguma forma, compõe nossa versão mais atual.

Para isso, claro, faço questão de me usar como exemplo, e citar o vizinho de andar que conheci por volta dos oito anos. Ou nove? Não sei ao certo, só sei que ele era mais velho, cabeludo, tocava guitarra e usava brinco. Resultado: furei a orelha, aprendi a tocar Come As You Are, deixei o cabelo crescer e comprei um skate para, como ele, ser o terror dos moradores do edifício Lagoinha, que, com razão, morriam de medo das finas que tirávamos dos carros deles.

Ele me apresentou o primeiro CD do Planet Hemp e, usando uma guitarra vermelha, mostrou-me a introdução de The Unforgiven. Resultado: comprei o Black álbum no dia seguinte e, uns anos depois, não com ele (nunca soube se ele curtia ou não), dei o primeiro peguinha num beque bolado com seda de padoca babada. “Legalize já, legalize já, uma erva natural não pode te prejudicar” e fui na onda do D2. Do Jim Morrison (entenderá nos próximos parágrafos). E que onda!

Fui na onda, também, do Royce Gracie: depois de alugar o primeiro UFC em VHS e assistir ao magrelo (em comparação aos outros lutadores) finalizando um a um com armlocks e mata-leões, eu pirei. Entrei de cabeça no mundo da luta. E apesar de não praticar mais jiu-jitsu por causa de lesões e do medo de piorá-las, sigo acompanhando o esporte de perto. E MMA, claro, que, na época, ainda era chamado de vale-tudo. Percebe como um pequeno acontecimento pode mudar uma vida toda? Enquanto a maioria dos meus amigos pira em futebol, cola no estádio e coisa e tal, eu, apesar de palmeirense como meu pai, vibro mesmo é pelo Charles do Bronx, pelo Demian Maia, pela Amanda Leoa e por tantos outros lutadores que admiro pacas. Uma fita cassete e BOOM!

Aliás, já que mencionei meu pai, não posso deixar de falar da influência dos anos o vendo cozinhar, selecionar ingredientes com carinho e, claro, comendo maravilhosos risotos e massas feitas por ele. Fui criado à base de muito parmesão e penne, e, como já era de se esperar, hoje também amo culinária e, quando vou ao supermercado, escolho cada berinjela com esmero, como se estivesse selecionando minha arma para uma batalha de vida ou morte. Quando mangiamo combattiamo con la morte, meu pai dizia, repetindo as palavras da mãe dele, minha nonna.

E o que dizer dos livros? Qual foi o estopim inicial para que eu me tornasse um escritor? Difícil precisar. Mas há um fato que certamente contribuiu: em 97 eu aluguei um filme sobre a banda The Doors e fiquei fascinado. Aquele universo rebelde do rock já me fazia a cabeça, né? E, no específico caso do Jim Morrison, devido ao meu amigo Pereira, que sempre colocava Roadhouse Blues para rolar no toca-fitas quando a mãe dele nos levava a alguma festinha do colégio. Só sei que pirei no filme e, no dia em que fui devolvê-lo à locadora, comprei uma biografia do Jim num daqueles displays de pocket books. Li e fiquei ainda mais doido. Tão interessado que comecei a correr atrás das influências literárias – e também as outras – do vocalista do The Doors, de Nietzsche a Willian Blake. Li tudo, mas não entendi nada. Não entendi, mas, com certeza, influenciaram-me no que sou hoje. Saca?

Ainda sobre a literatura, também faço questão de mencionar os livros do Sherlock Holmes que meu pai me dava. Antes mesmo do Jim.  E também o Escaravelho do Diabo, da Coleção Vaga-Lume. Graças ao sagaz detetive inglês e aos ruivos mortos por um serial killer que enviava besouros para dar pistas de como agiria, eu me encantei pela leitura, passo fundamental para que eu resolvesse dar minhas primeiras brincadas de escritor. Eu precisava me expressar, já tinha essa ânsia que só consigo curar colocando tudo no papel, e, como não levava muito jeito para a música, como não conseguia ir muito além de Patience, resolvi recorrer à caneta e ao papel. Funcionou. Bom… Não escrevi nada genial, mas despertou em mim a sensação de completude que até hoje sinto quando estou produzindo algo. Agora, por exemplo.

Mas deixando a literatura um pouco de lado – ou nem tanto: tudo que escrevo tem um pouco das minhas influências -, num texto sobre minhas matérias-primas não posso nunca deixar de mencionar minhas férias na área rural do Sul de Minas: por causa dos tempos no meio do mato, das serpentes que cruzaram comigo por lá, nasceu minha paixão pelos répteis, em especial os rastejantes; tão forte que quase me tornei um herpetólogo. Por um triz. Tão forte que meu próximo romance (policial – lembra do Sherlock e dos escaravelhos?) está recheado delas. E tem jiu-jitsu também. Louco como tudo se liga, né?

No tempo em que escalava árvores e fazia estilingues também construí meu amor pela vida simples, por tudo aquilo que não precisa de wi-fi para rolar. Por isso que, até hoje, gosto muito de passar uns dias enfiado no meio do mato para me desintoxicar um pouco das peçonhas da cidade grande. Sem contar que meus doces preferidos são: doce de leite, doce de abóbora, cural, arroz-doce… Não é mera coincidência, nunca foi. Posso afirmar, inclusive, parodiando o Oswaldo Montenegro, que metade de mim é amor, e a outra… Doce de leite!

Brincadeiras e exageros à parte, não é curioso como esses pequenos pontos tiveram nítidas influências na construção do que me tornei e produzo? E mais curioso ainda é notar que eles, de alguma forma, também se ligam entre si: se não fosse o Ricardo para me apresentar os tantos músicos sedentos por expressarem seus turbilhões eu, talvez, não tivesse alugado o filme do The Doors, e então não teria mergulhado nas influências literárias do Jim, e não teria tentado abrir minhas portas da percepção com tudo quanto é “chave” na adolescência rebelde, e “dig, dig, dig, planet hempa!”, e… Talvez você, por não ter sido impactado por tudo isso como eu fui, não perceba com tanta nitidez como tudo está interligado. Tão linkado que acabo este texto ouvindo Soundgarden e pensando que talvez valha a pena dar um pulinho na Jamaica quando o mundo parar de acabar. Só para sair um pouco desta dieta da sanidade, deste controle absoluto. Levarei uns romances policiais para ler no avião e uns vidros de doce de leite para consumir após o contato com o verde da cultura local.

Quanto ao Ricardo, meu vizinho: vi numa rede social que virou pai, cortou o cabelo e tirou brinco. Mas quem sabe ele não topa um rolê de skate um dia desses. Quem sabe, né? Vou até mandar este texto para ele, para que saiba o quanto, mesmo sem saber, fazendo apenas o papel de amigo mais velho, conseguiu me influenciar.

Sigo de brincos e sem saber tocar violão.

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Ricardo Coiro

Ricardo Coiro

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