Viver é perder

Viver é perder, diariamente. Assim é o jogo da existência, conforme-se.

Inicia-se com a bolsa estourando e o líquido amniótico – que por meses envolveu você e manteve a temperatura do útero agradável – começando a deixá-lo, vagina da sua mãe afora. Às vezes, de uma só vez, feito cachoeira; noutras, aos poucos, como goteira. Então, graças a um obstetra, você perde o direito à estadia; é arrancado sem chance de fazer checkout ou verificar se não se esqueceu de nada. E logo perde, para a tesoura, parte do cordão umbilical – e aquela que sobra, ainda com você, logo será levada pela vida. Endurecerá e cairá. Podre.

Mas as perdas não param por aí. Pelo contrário, elas só aumentam! Você ganha tetas cheias de leite, mas logo as perde. O leite seca. Ganha chupeta, vicia-se nela, mas logo precisa parar sem 12 passos ou acompanhamento terapêutico. Apenas precisa perder o hábito, como se fosse fácil. Aí você começa a perder as roupas, até mesmo aquelas nas quais você se sente bem. Perde umas e ganha outras, não posso deixar de dizer. Mas perde, e este texto é sobre perder, majoritariamente.

E perde também os dentes. Às vezes, de maneira tranquila, durante o sono; às vezes, assustadoramente, para a porta que, por uma linha, está presa a eles. E continua a perder: você faz amigos na escolinha, mas logo precisa deixá-los porque seu pai arrumou um emprego longe, em outra cidade, na casa do caralho. E, de repente – num momento de despreparo total -, perde a sua avó, e não entende o motivo pelo qual elas não são eternas. E chora. E sente saudade dos bolos e férias nas quais tudo podia ser feito, sem leis maternas ou limite para refrigerante. E chora. E sente um rombo, o buraco que nunca será preenchido nem por aquelas ilusões que nos fazem perder saúde. Pois algo foi perdido. Algo insubstituível.

Perder, porém, nem sempre dói, e, em alguns casos, é até algo que você deseja: estou falando da virgindade, meu caro. Do momento em que você a perde e, de uma gozada precoce para uma subida na calça desajeitada, sente-se outro, mais leve por ter perdido aquilo que seus amigos, há tempos, já afirmavam que haviam perdido. Depois, perde provas e empregos por pura farra, bebedeira, baseados e outras coisas lisérgicas. E perde noites tentando recuperar o tempo perdido. E, por isso, perde festas, e chances de conhecer o amor da sua vida (ou aquele por quem, toda música, parecerá feita para expor o que você está sentindo). E perde namoradas para o seu próprio ciúme. E perde o ciúme quando não está mais a fim da namorada. E perde esposas. E perde chances de dizer à esposa que, sem ela, não tem nada. Perde porque, sem saber, perde tempo demais trabalhando, perdendo-se entre o desejo de enriquecer e a vontade de se aposentar logo. Então, quando parece que ganhou o bastante, começa a notar que está perdendo a saúde. E nada mais pode fazer. Se tiver um bom plano de saúde, melhor. Mas não é o bastante. Pois continua perdendo o vigor da pele, a força do coração, a ereção do cacete. Tudo! Um dia se olha não espelho e, já sem cabelo algum, percebe que perdeu coisa à beça. E pensa: gostaria de ter a experiência que tenho hoje com a vitalidade e vontade que tive um dia. Mas não dá: a experiência verdadeira, aquela que faz todo mundo largar o smartphone na mesa de jantar, só é possível depois de perder quase tudo, infelizmente.

A experiência sempre chega atrasada, depois que perdemos quase tudo aquilo que precisamos para aproveitá-la de fato. Mas viver é perder, lembra-se? Ou perdeu também a memória?