Sou do Bloco Só Saio do Sofá para Fazer Pipoca

“Minha folia não terá abadá, marchinhas e mascarados. Aproveitarei a pausa para colocar séries em dia e descansar”, afirmei.

“Tem certeza de que passará o Carnaval enfiado dentro de casa?”, o cidadão que só me parece satisfeito quando está bêbado e na balada me perguntou, olhando-me com clara expressão de dó, como se eu tivesse acabado de anunciar a perda de um testículo ou a convocação para uma guerra.

Ele quer muito me levar à gandaia, está a fim de me enfiar em multidões suadas nas quais o silêncio e solos de guitarra não têm vez. Mas já está decidido: enquanto boa parte do Brasil estará sambando fantasiada por aí, eu estarei no conforto do meu lar e dentro de um pijama de algodão cheirando a amaciante. E digo mais: em minha mão esquerda haverá um pedaço de bolo de cenoura – ou outra gostosura do tipo – e, na direita, o controle da TV.

Deixarei o Carnaval – e, consequentemente, os bêbados portando chupetas gigantes e trios elétricos que deixam no ouvido um eterno ruído – aos que o amam de verdade, àqueles que o aguardam com a mesma ânsia que espero pela próxima temporada de Sense8.

Se você é um folião convicto e sedento para mostrar o samba que tem nos pés, saiba que não me acho nem um pouco mais inteligente do que você porque a festa que ama não faz a minha cabeça. Cada qual com sua onda, não é mesmo? E vou além: do meu sofá e com as pernas apontadas para o teto estarei torcendo para que este seja o melhor Carnaval da sua vida. E, principalmente, para que não falte nem um pingo de respeito e educação nos lugares pelos quais desfilará.

Neste ano, do Carnaval eu vestirei apenas o direito de não trabalhar e, provavelmente, a deprê que bate na Quarta-feira de Cinzas. Nada mais. E por mais estranho que isso possa parecer àqueles que passam o ano inteiro preparando a panturrilha para a avenida, estou muito animado por saber que terminarei a terceira temporada de Vikings enquanto uma multidão cantará, em coro, “Mamãe eu quero” e “Me dá um dinheiro aí”.

Afirmo: este ano meu Carnaval será na pipoca – e não estou me refiro à área onde ocorre a festança gratuita para o público que não pode/quer comprar abadá -: enquanto muitos estarão jogando confete e serpentina para o alto, estarei tentando abocanhar pipocas voadoras arremessadas pela minha namorada. E, para mim, não será um Carnaval desperdiçado – como alguns podem estar pensando. Porque o desperdício de uns muitas vezes é o luxo de outros, já reparou?

O que seria dos Rolling Stones se todos curtissem Chiclete com Banana, não é mesmo? O que seria do combo nuggets com Woody Allen se todos só quisessem saber de catuaba com Ivete? Um brinde à pluralidade e às diferenças que dão graça à humanidade. Um brinde com moderação e consciência, por favor. Um brinde e um aviso: Netflix, já pode começar a se aquecer. Pois eu vou lhe usar (releia com voz de José Wilker)!