Passei dos 30 e não consegui o que planejei aos 20

Logo eu, Ricardo Coiro, farei trinta e um anos. E sempre que meu aniversário se aproxima sou possuído por um espírito de reflexão, uma necessidade inadiável de fazer um balanço geral da minha vida. Geralmente faço em silêncio, só para mim. Hoje, porém, quero dividi-lo com você. O motivo: é possível que se identifique com meu momento e até, quem sabe, que se sinta aliviado por perceber que não é a única pessoa no mundo que não atingiu a maioria dos planos que fez lá atrás, em algum lugar depois da adolescência.

Aos vinte, quando entrei em meu segundo emprego, fiz um plano audacioso: juntar um milhão de reais até os quarenta. E apesar do salário simbólico de estagiário que recebia na época, parecia-me perfeitamente atingível. Bastaria seguir fielmente uma planilha de investimentos que um amigo economista havia feito, afinal. E eu teria, também, que conquistar melhores salários – já que o investimento mensal necessário para alcançar a meta aumentaria algumas vezes com o passar dos anos.

Nove anos e alguns dias me separam dos quarenta, e minha poupança está zerada. Pior: há apenas noventa e oito reais em minha conta corrente, e ainda preciso pagar a luz, a TV a cabo, a conta de celular e o IPVA. De acordo com a planilha que parei de seguir por volta dos vinte e dois – quando minha vida sofreu várias reviravoltas – eu já deveria ter pelo menos trezentos mil em algum investimento. E deveria, também, ter um salário – e um custo de vida – que me permitisse poupar algo em torno de dois mil e quinhentos reais por mês. Deveria, mas não deu.

E quer saber? Que se dane meu primeiro milhão. Que se dane mesmo. Pois ele foi almejado por alguém muito diferente daquele que sou neste instante, por um Ricardo Coiro com uma visão de sucesso que nada tem a ver com a visão de sucesso do Ricardo Coiro de agora.

Na casa dos vinte eu sonhava em ter o carro do ano, do tipo que chama atenção por onde passa; hoje desejo apenas um veículo que me leve em segurança do ponto A ao ponto B. Mais do que isso: eu quero mesmo é me mudar para uma cidade na qual eu possa caminhar em segurança, onde o transporte público funciona.

Se o Coiro pós-adolescente e de testa oleosa só via graça em roupas de marca e fazia questão de não perder nunca o questionável trem-bala da moda, o Coiro trintão de hoje está muito mais interessado em roupas capazes de expor aquilo que ele é e pensa, independente do preço que custam e da moral que dão em camarotes de baladas cheias de gente oca.

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O Coiro de hoje faz o possível para comprar roupa apenas quando há necessidade, ou seja, quase nunca. Sempre que abre as gavetas do armário ele percebe que possui bem mais do que precisa e resolve doar algo. E sabe o mais curioso? Sempre que doa, mesmo que pouco, sente-se recebendo.

Se o Coiro de antigamente – com metabolismo capaz de encarar feijoadas na madruga sem acabar no sal de fruta – desejava grana para comprar uma cobertura num bairro nobre de São Paulo, o Coiro atual – de joelhos que fazem “creck” – quer mesmo autonomia para voar por aí. Em vez de ter, ele prefere alugar. Quer mais asas do que raízes por achar a vida é muito fugaz – e cheia de tesouros espalhados – para ser vivida só num canto, com medo do novo.

Saí da faculdade com o objetivo de ser um publicitário “bem-sucedido” – desses que vendem até a mãe por prêmios e dinheiro -, hoje, porém, eu quero mesmo é encontrar maneiras de transformar a minha paixão (a escrita) em algo rentável e, ao mesmo tempo, capaz de influenciar positivamente as pessoas, tirando-as de zonas de conforto e as fazendo enxergar o mundo de maneira mais ampla e leve. Ainda sou um publicitário, é verdade. Para sempre serei publicitário. A diferença é: agora eu vendo um produto no qual realmente acredito porque é feito, basicamente, dos meus sonhos e das tantas sutilezas que me tocam a alma e o coração. Compreende? E sempre que penso em fazer parceria com alguma marca, pergunto-me: ela tem realmente a ver comigo e com as minhas crenças ou só farei por grana? E faço, apenas, se tem. Ponto.

Eu queria ter um milhão e nem sabia por quê. Queria porque todos os meus amigos da época também queriam. Hoje estou muito mais interessado naquilo que me agrega valores e, consequentemente, torna-se capaz de somar na vida daqueles que amo. Hoje, antes de qualquer coisa, quero saúde para desfrutar dos simples – porém, atômicos – prazeres da vida; como viajar, fazer cafuné em meus gatos, cozinhar à minha namorada, levar minha mãe ao shopping, tomar a caipirinha de pinga e limão do meu pai, comer sushi com meus amigos, bater papo com meus avós (sim, eu sou um sortudo porque ainda os tenho!), assistir a séries com meu irmão, rir dos dentes roxos de açaí da minha irmã, escrever sobre aquilo que me emociona enquanto a brisa da próxima tempestade despenteia meus cabelos…

Se ainda quero um milhão? Claro. O tempo não me tornou idiota, afinal. No entanto, se para tê-lo eu tiver que abrir mão de preciosidades como tempo com quem amo e saúde, eu passo. De verdade. Da mesma forma que passei “oportunidades” de ganhar grana com política. Passo porque hoje, à beira dos trinta e um, sinto-me imensamente grato e rico, mesmo não tendo conquistado quase nada do que planejei com vinte.

Não fui capa da Você S/A nem inventei um aplicativo que revolucionou a humanidade. Não me tornei diretor de multinacional. O máximo que consegui foi um carro 1.4. Mas tenho amigos com quem posso contar se meu pneu furar de madrugada, família que me ama incondicionalmente e me apoia em meus projetos mais loucos, uma namorada que atura minha ansiedade e me motiva a ser minha melhor versão, dois gatos que ronronam sempre que piso em casa, acesso a muitas e muitas séries e uma profissão que não me causa ódio das segundas-feiras nem necessidade constante de férias.

Ou seja, só tenho a agradecer: obrigado por tudo, vida. Principalmente por ter me feito abandonar os sonhos que, cedo ou tarde – e com toda certeza! -, tornariam-se verdadeiros fardos; insatisfação que vive a perseguir aqueles que não enxergam as riquezas que possuem do lado de dentro.

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