“Que homão da porra”

“Que homão da porra” , “Casa comigo?” e “Perfeição resume” para todos os lados, até mesmo para mim, que passei bem longe de ser o objeto de desejo da escola – tão distante que uma professora de português – a Malú – adorava me chamar de “feio”.

Doideira, né? Eu acho, sinceramente. Porque nós – escritores e outras figuras do universo virtual – vivemos a ser superestimados, confundidos com os personagens/heróis de nossas ficções. Às vezes, até endeusados.

É bem verdade que quase sempre colocamos um tiquinho da gente naquilo que criamos. Mas não o bastante para motivar pedidos de casamento e exageros do tipo, acredite. Não o suficiente para me livrar do estranhamento que nasce quando me dizem “ah se todos os homens fossem iguais a você”.

Nós, escritores com certo espaço no mundinho virtual, somos muito parecidos com vários outros tipos de homens – até com seu namorado, juro. A diferença é: temos visibilidade e sabemos expressar nossas opiniões e maluquices de maneira convincente/atraente/cativante. Saca? Somos bons em escrever bilhetes e cartas também, não posso negar. Mas para por aí! De resto, somos muitos parecidos com advogados, padeiros, confeiteiros, garis, professores de Zumba e outros caras que exercem profissões que não exigem muita exposição pública.

Além de ser escritor, também sou leitor – não vejo possibilidade de dissociação, afinal. Por isso consigo entender quando a admiração pela criatura se torna grande a ponto de transbordar, transformando-se, também, em fascínio pelo criador. Entendo mesmo. E justamente por isso, por saber das confusões que podemos gerar por meio de nossos exércitos de palavras, peço que sempre se esforcem para manter uma linha de separação entre nós e nossas obras. Nem que apenas uma mureta ou um pontilhado de giz, só para nunca se esquecerem de que não somos sempre os príncipes que pintamos nem os vilões que ferram geral em nossos livros.

Por que estou falando tudo isso? No começo, quando ganhamos espaço na tal da web, os tantos elogios que recebemos – e que nada têm a ver com o que produzimos -, fazem bem ao nosso ego. Depois de um tempo, porém, começa a dar um medo deles, de nos tornarmos mais importantes do que os nossos próprios filhos – a ponto de nem sequer lerem o conteúdo que produzimos por começarem a se contentar apenas com a presença de nossa imagem; a ponto de aproveitarem – para elogiar nossa boca e outros atributos que nada têm a ver com o ofício que exercemos – o momento em que tanto esperamos um comentário referente a nosso texto recém-publicado; aquele que nos tomou horas e, até, a vontade de comer.

Sem contar que, após conversar com talentosas escritoras (Bruna Grotti e Nathalí Macedo) deste planetinha pixealizado, um fato ficou evidente: para elas, ganhar relevância é muito mais difícil do que para gente como eu. Afinal, muitas leitoras não estão nem um pouco interessadas nos conteúdos: só querem saber de nutrir amores platônicos pelos carinhas que os criam. Compreende a nóia?

“Gostaria que meu namorado fosse igual a você?”, vivem a dizer para gente como eu. E a menos que queiram dizer “Gostaria que meu namorado tivesse afinidade com as palavras, queda por bolos e pavor de ficar doente”, não faz muito sentido. Nenhum, para ser franco.

Seu namorado talvez seja muito melhor do que nós, “palavristas”. E não só apenas em matemática e na capacidade de organizar a casa, não. Ou talvez seja pior, não posso descartar… Vai saber o que ele faz quando diz que vai jogar bola, né? Mas a questão, a que realmente importa a este texto, é: a não ser que você tenha menos de quinze anos, não faz muito sentido nos tratar como se fôssemos os Hanson desta Era. E se, mesmo assim, quiser continuar acreditando e alimentando uma ilusão, tudo bem. Tem gente que jura que o Programa do João Kléber não é combinado…

Você tem o direito de fazer o que quiser, até imprimir as nossas fotos do Insta para colar em sua parede. Mas o que realmente me agrada é saber que investe seu tempo naquilo que crio. Pois num mundo onde chove informação, e todas implorando por sua atenção, saber da existência de gente que dá valor ao nosso trabalho é um elogio maior do que um caminhão de “Que homão da porra”, juro. Aliás, por que não um “Que textão da porra”?

Observação 1: escrevi este texto, também, porque desejo explorar cada vez mais uma das coisas mais maravilhosas do meu ofício: a possibilidade de ser, ao menos num texto, alguém que não sou e nunca serei. Uma velha viciada em vodca de Moscou, por exemplo. Ou um assassino que só mata gente com furinho no queixo à la Humberto Martins. Ou… Saca? E tenho receio de ser confundido com meus monstros, até mais do que com meus príncipes, por motivos óbvios.

Observação 2: confiram o trampo das autoras citadas neste texto. Para elas, como disse, é mais difícil ganhar espaço. Mesmo quando produzem conteúdo tão bom – ou melhor – do que o nosso.

Observação 3: no texto de ontem, sobre tirar camisa para vender livros, eu peguei um pouco pesado. Não que eu tenha mudado de ideia – e passado a achar que tirar selfies para vender livro seja um caminho lógico ou no qual eu consiga me sentir confortável. No entanto, após um papo com o escritor Fábio Chap – que me abriu a cabeça -, percebi que há o lado da necessidade que não pode ser desconsiderado, já muita gente faz o que for preciso – fotos sem camisa, inclusive, se elas ajudarem da venda dos livros – porque não pode atrasar o aluguel. Gostaria de ter sido mais preciso, criticado apenas o modelo em que a imagem do escritor, muitas vezes, acaba sendo mais importante do que o conteúdo que ele produz. Mas sabem como é a emoção, né? Enfim.

Observação 4: em alguns textos eu, Ricardo, dou opiniões. E isso pode fazer com que pessoas me achem interessante, é verdade. Mas perfeito? Mas casar? Mas…

Observação 5: quem de fato merece o título deste texto é o cara da imagem que usei para fisgar a atenção de vocês.