Quantos parceiros perdeu ao buscar príncipes?

Uma amiga conheceu um homem – não um príncipe – num dos tantos aplicativos criados para conectar pessoas. E logo se viu falando com ele por horas e horas. Madrugadas, até. Afinal, a primeira conversa foi suficiente para perceber a imensa afinidade que havia entre eles. Afinidade e tesão, vale ressaltar. Porque o papo esquentou numa noite dessas; e ela desejou, com todas as forças, estar na mesma cama que ele. Até que se encontraram. Finalmente. Cumprimentara-se com um beijão na boca, de cara. E logo foram ao carro trocar carícias mais calientes, se é que me entende. E lá, enquanto ele a levava às alturas apenas com o toque dos dedos, ela notou a pança do moço. Notou e sentiu certo desconforto. Ela está acostumada a homens magros, dentro do padrão que vive a ser vendido em revistas e na TV.

No dia seguinte, ela mudou de tom com ele. Falou menos do que o habitual. Estava diferente, mais fria, muito mais distante. E o cara percebeu, obviamente. E perguntou o motivo. Ela então disse que nunca tinha ficado com gordinho, que aquilo era diferente e blábláblá… Ele ficou puto. Com razão, né? Mandou mensagem dizendo que isso nunca o havia atrapalhado em nada e que se importava com coisas mais importantes. No mesmo momento ela sacou a bestialidade que tinha feito. E tentou reverter a situação. Mas não rolou. Pediu desculpa. Mas não deu. Continuam se falando, mas ele deixou claro que não quer mais ficar com ela.

Lágrimas.

“Por que eu fui tão idiota?” que não para de ecoar dentro dela.

Mais uma vez a idealização matou uma semente com grandes chances de florescer.

Horrível, né? Mas acontece todos os dias, em todos os cantos. E sabe por que rola? Porque fomos, desde a infância, ensinados a suspirar somente por gente que se assemelha aos príncipes e princesas da Disney. Gente magra, branca e de cabelo liso. Fomos tão bombardeados pelo padrão estético Barbie e Ken que, muitas vezes, não conseguimos enxergar as características que realmente importam naqueles com quem estamos pensando em nos relacionar. Quando o rótulo não se parece com aquele que idealizamos – porque fomos ensinados dessa maneira -, nem chegamos a provar o que tem dentro. E assim perdemos a oportunidade de experimentar coisas incríveis.

Há muita gente presa a expectativas idiotas, essa que é a verdade. Gente que se liga apenas em superfície, que nem sequer leva o conteúdo em consideração, capaz de trocar relações construídas com anos de respeito e carinho por uma bunda redonda.

“E se sua namorada engordar, o que você fará?”, perguntaram-me outro dia numa mesa de bar. Uma pergunta pra lá de rasa, não acha? Porque me preocuparei, de fato, se ela mudar de personalidade, parar de me dar carinho, perder a vontade de conversar comigo, começar a fazer planos antagônicos aos meus, achar minha comida demasiadamente salgada, ficar triste, adoecer…

E as idealizações traiçoeiras não param no campo estético, não. Pois muita gente desiste de dar continuidade a relações que têm tudo para dar certo por causa de futilidades como classe social, sobrenome, opinião alheia e outros fatores que, se pensar bem, não têm qualquer poder de influência no bom funcionamento de um relacionamento.

E vou além: nosso planeta está cheio de pessoas que vivem casamentos horríveis porque priorizaram critérios fúteis – como beleza e posição social – na hora de escolherem o parceiro. Gente que não ouviu a opinião do próprio coração no momento de decidir compartilhar a vida com alguém. Gente apagada à imagem, acima de tudo.

Imagem! Imagem! Imagem! Só isso parece importar neste mundo feito de quadrados compartilháveis. Basta prestar atenções nos filmes cheios de efeito especial e com escassez de conteúdo que lotam cinemas; e também nos textos que estão encolhendo porque as pessoas só querem saber daquilo que pode ser digerido rapidamente, de bate-pronto. Quando é que começaremos a prestar mais atenção no recheio e menos nos rótulos, hein? Porque, afinal de contas, é daquilo que tem dentro que nos nutrimos, não é mesmo?

Quando parar de procurar por um príncipe que nem sequer exista, finalmente, vai ser capaz de enxergar os tantos potenciais parceiros que estão por aí, apenas esperando uma chance para fazê-la sorrir.