A pergunta que deve se fazer é “por que não?”

“Por que não?” é a pergunta que mais tenho me feito. Pergunto-me e, na maioria dos casos, não encontro respostas capazes de me barrar.

“Por que não me mudar para uma cidade com um custo de vida menor e uma qualidade de vida maior?”, questionei-me outro dia, enquanto roía as unhas e esperava pelo verde secular de um farol. E nenhuma das respostas que encontrei me pareceu suficientemente impeditiva. Pelo contrário: as razões para ir soterraram os motivos para ficar. Amizades verdadeiras não morrem por causa de distâncias geográficas, a família sempre deseja o melhor para nós e escritores podem trabalhar de qualquer cantinho, afinal.

“Por que não buscar patrocinadores para um projeto no qual acredito muito?”, indaguei-me ainda tomado por um misto de medo e euforia. E só uma resposta negativa me veio à mente: “Porque você pode receber mais um ardido ‘não’!”. Portadas na cara nunca me fizeram desistir, porém. Sendo assim, a possibilidade de falarem “sim” para a realização de um sonho, imediatamente, neutralizou o pavor de mais um “não” em minha considerável coleção de banhos de água fria e “Fica para uma outra vez, tá?”. E se não der certo agora? Com certeza será melhor do que me sentir obrigado a carregar um pesadíssimo “E se eu tivesse apresentado minha ideia às marcas, será que teriam topado?”.

Chega de “E se eu tivesse feito?”. Chega! Agora é hora de disparar “Por que não fazer?”, “Por que não tentar?”, “Porque não pedir?”, “Por que não demonstrar?”, “Porque não trocar?”… Sacou? Pois muito mais pesado do que portar a certeza de ter cometido um erro é se sentir para sempre engasgado com uma dúvida -um fruto amargo da falta de ação e do excesso de covardia.

O medo das possíveis consequências ruins das minhas ações já me congelou mil vezes antes. Talvez até mais. Agora, contudo, o que mais me amedronta é não saber a quais paraísos e descobertas minhas atitudes e força de vontade podem me levar. Eu preciso descobrir. Preciso! E antes que tente me fazer desistir cuspindo os tantos “poréns” que vivem a cimentá-lo, faço questão de declarar: eu conheço os riscos inerentes a qualquer salto que termina além de zonas de conforto já cheias dos meus rastros, sei das dolorosas fraturas que mergulhos em águas escuras podem gerar. Mas, neste momento, nada me parece tão agonizante quanto, no fim da vida – e preso a um corpo que range e beira a inutilidade -, descobrir-me condenado a dúvidas insolúveis, fardos pesados como transatlânticos, do tipo: “O que teria acontecido se eu tivesse declarado meu amor quando ela se sentiu insegura?”, “Se eu não tivesse demorado tanto a pedir perdão, nossa amizade teria voltado a ser forte como começou?”, “E se eu tivesse mudado de profissão, tentado transformar passatempo em ganha-pão, teria agora asco da palavra ‘trabalho’?”, “E se eu tivesse tentado mais uma vez, só mais uma, será que teria passado no exame?”, “E se eu tivesse demonstrado o quão bem ela me fazia só por estar ali, mesmo que só lendo e mordendo os lábios em silêncio, ela teria partido sem sequer deixar bilhete na geladeira?”

Por que não trocar a possibilidade de acabar afogado em suposições imortais por cicatrizes e lembranças reais que me darão a certeza de que tentei, ao menos; convicção que me fará dar um último leve suspiro – e não uma bufada de despedida.