O que cabe numa piscada?

Faz frio como nunca peguei por aqui. -10, talvez.

Numa rua do centro de São Paulo, sozinho, dou os maiores passos que posso e, mesmo assim, ainda me parece pouco. Ofego enquanto os pulmões ardem e sinto vontade de vomitar por causa de pontadas que parecem perfurar meus órgãos. Não desacelero, porém. Pelo contrário: começo a correr porque a sensação de que há algo me espreitando, por razões que não sei lhe explicar, só aumenta.

Eu não sei por que estou aqui e não me interessa descobrir. Não agora! Não sei se é madrugada nem o motivo da total ausência de carros nesta rua que parece não ter fim, margeada por postes que contêm luzes piscantes que quase não conseguem iluminar o asfalto.

No momento, só quero me sentir seguro de novo, bem longe daquilo que, de acordo com um pressentimento que me toma – e que torna impossível qualquer pensamento otimista -, está decidido a me fazer mal.

Algo me diz que hoje, finalmente, pagarei por pela coleção de pecados que acumulei; pelos amores que fingi e amigos que traí; pelas mentiras, as tantas que cuspi preocupado apenas em safar meu umbigo, nem aí para as destruições que poderia causar – e causei, pode acreditar! Algo me diz que a conta está prestes a chegar, e que aumentar a velocidade de nada adiantará.

Então, paro. Congelo.

Tum-tum-tum-tum-tum-tum-tum na goela. Quase duzentos por minuto. Mas não vou enfartar, eu sei, e não me pergunte como. E sei, também – e mais uma vez sem saber o porquê -, que o fio elétrico que estrebucha e faísca ao meu lado, como uma naja enraivecida recém-mordida por um mangusto, não me atingirá. Talvez eu deva agarrá-lo da próxima vez em que chicotear perto do meu rosto, aliás; porque uma voz interior não para de afirmar: aquele que vai lhe deixar sequelas vitalícias se aproxima rápido, e vai alcançá-lo, não há escapatória.

Ajoelho.

E enquanto tento recuperar o fôlego, noto que um ser caminha em minha direção. Um homem, provavelmente. Mas não posso lhe dar certeza: está longe demais; para a minha aflição, ainda não passa de um pontinho que cresce lentamente.

Parte de mim quer fugir, mas não é párea à decisão do resto, que já está se preparando ao pior, pedindo-me para fechar os olhos e aceitar. Cerro-os, então, e aguardo dentro da minha escuridão. Eu e o pior silêncio de todos, que só tem fim quando homem – estava certo! -, com as pontas dos sapatos tocando meus joelhos, afirma:

Só você pode me salvar.

Salvá-lo do quê?, penso, já esperando por uma machadada, tiro, sei lá.

Só você pode, ele insiste; agora com os dedos cravados em meus ombros.

Continuo de olhos fechados, ignorando-o. Só desejando que seja breve.

Ele me chacoalha e implora:

Por favor!

Tento empurrá-lo, mas ele agarra-me pelos pulsos. Firme.

Por favor!, ele grita enquanto joga todo o peso para trás, tentando me fazer levantar.

Abro os olhos e vejo que ele tem cacos de vidro por toda a cara, quase um cacto. E uma barra de metal prateado lhe atravessando o pescoço.

Por favor! Por favor! Por favor!

Ouço uma buzina contínua, algo que parece vir de fora deste mundo, de outra dimensão. Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…

Abro os olhos. Merda! Estou na contramão, quase beijando um Pálio prata. Piso no freio com tudo, até o fim, mas a caminhonete não para. Chuto-o para um desfiladeiro como se ele pesasse menos do que uma caixa de fósforos.