Eu não vou me adaptar!

“Sem o fenômeno dos livros de colorir e sofrendo os efeitos da crise econômica, o mercado editorial brasileiro fechou o primeiro semestre de 2016 em queda com relação ao mesmo período de 2015. O declínio foi de 16,3% no volume de vendas”, informou um site. E não foi a primeira vez que li algo assustador do tipo.

Tenho ouvido, também, um bocado de gente afirmando que os blogs – principalmente aqueles que focam em crônicas e contos de qualidade – estão perdendo espaço para o YouTube e outras plataformas de conteúdo mais imagético e de fácil digestão; do tipo que já vem mastigado e, portanto, que não exige do receptor muito foco – coisa que pouca gente sabe o que é nesta Era Multiplataforma na qual vivemos diluímos em diversas janelas sem perceber que não estamos de fato em nenhuma.

A verdade é: a oferta de conteúdo, grosso modo, está se adaptando à demanda criada pelos consumidores atuais predominantes, gente que tem dificuldade de ler – e compreender! – um parágrafo inteiro, que quando se depara com um texto mais longo e complexo, desiste antes mesmo de iniciá-lo, e nas poucas vezes em que tenta, geralmente, finda a leitura no meio porque sente uma necessidade impostergável de interagir no grupo do WhatsApp, pesquisar os custos de passagens a Salvador, conferir quantos likes teve na última selfie postada…

“Você precisa tirar alguns parágrafos, deixar o texto mais curto”, editores de veículos já me pediram. E não rolou uma só vez, não! “Sabe o que é? Se tem mais de oito parágrafos ninguém lê. O ideal é seis, tá bom?”, explicaram. Entendo o lado deles, de verdade. E entendo, também, aqueles que me disseram para escrever textos mais cheios de esperança e menos realistas. Afinal, estão preocupados em entregar aquilo que tem sido buscado por aí. Entendo-os, porém, ainda estou a fim de nadar na contramão. Saca? Mais do que nunca!

Um dia, talvez, eu desista de remar contra essa maré de coisas que não me dão tesão; e fale um monte de merda no YouTube só para vender mais livros feitos de frases curtas, e comece a fazer jabá de tudo e mais um pouco – até do que não acredito -, e tire foto no elevador só para ganhar seguidores, e comece a publicar somente aquilo que as pessoas querem ler, independente do que quero escrever. Um dia, talvez…

Por enquanto, porém, eu quero mesmo é seguir na contramão. Mais, até, do que fiz nos últimos meses – pois ao olhar para trás, noto que estava me adaptando às exigências do mercado e me afastando, lentamente, daquilo que mais admirava quando deixei a publicidade.

Há algo em mim que me pede para insistir mais um pouco numa rota que pouca gente continua pegando, que me dá esporro todas as vezes em que penso em me tornar mais um dos tantos que só vendem conteúdo por causa da imagem que mantêm a base de caras e bocas. Há uma voz interna que me diz para parar de emborrachar as quinas. “A vida não é uma novela da Globo, Ricardo!”.

Além do mais, se for para escrever somente que os outros estão dispostos a ler – independente do que me dá prazer, eu prefiro voltar à publicidade, fazer planos de mídia para vender macarrões instantâneos e outras pirocas do tipo. De verdade. Mas eu larguei tudo para me dedicar somente à escrita, não é mesmo? Então, no momento, só vejo uma alternativa: escrever, escrever, escrever, escrever, escrever, escrever… Até apagar todas as teclas do teclado. Escrever, escrever, escrever, escrever, escrever… Até tirar de mim o turbilhão que só cuspindo as palavras eu consigo. Escrever, escrever, escrever, escrever, escrever… Até… Sei lá!

Só sei que eu não vou me adaptar à realidade editorial que considero cada vez mais pobre e, consequentemente, empobrecedora. Só isso.