Deixou-me com tudo, menos comigo

Não há nada aqui. Nem eu.

Quando saiu desviando das minhas súplicas, mesmo abrindo mão de tudo que foi nosso, levou-me junto.

Fiquei com o espremedor de laranja que compramos por impulso e nunca usamos, com a garrafa de pisco que trouxemos da primeira vez que fomos a Santiago e nem sequer cogitamos abrir, com o gato obeso que da inanição resgatamos e com o chuveiro que – apesar de pingar pouco e na direção errada – por medo de descarga elétrica de parar o coração nós nunca trocamos.

Fiquei, também, com o edredom pesado que nos obrigava a tirar par ou ímpar para definir quem o penduraria no varal, com as toalhas velhas e ásperas que eu nunca deixei você jogar fora e, até, com a quitinete na praia que, para conseguirmos pagar, tivemos de passar incontáveis feriados e férias por aqui mesmo, nesta casa agora sem cor, comendo pão francês com queijo e mortadela e assistindo aos filmes que você só percebia que já havia visto nas últimas cenas. Fiquei com todos os cacarecos que um dia nos pareceram irresistíveis, é verdade, mas é como se não tivesse me restado nada – só um espaço que não consigo preencher.

Porque quando foi, não por maldade ou coisa parecida, levou também uma porção de coisas que, agora – e não por muito tempo, espero! – parecem-me essenciais.

No porta-malas miúdo do seu Uno verde, depois de me dizer para ficar bem e me olhar como se soubesse a desilusão em pessoa que eu me tornaria, colocou a gargalhada sem botão de desligar que eu só soltava ao seu lado, quando imitava a voz exageradamente mansa do Zé, o vizinho que você esperava sair do elevador para, carinhosamente, chamar de “o serial killer do segundo”.

No Unão verde-abacate que você nunca conseguirá vender – faço questão de repetir! -, junto com o sapato social que deixava lá “para emergências” e a mochila que encheu rápido enquanto eu lhe pedia mais uma chance, “só mais uma, por favor!”, também enfiou minha afinidade com o silencio (não imagina como eu sinto falta dos seus barulhos agora, até daquele irritante que fazia quando lixava a unha sobre o sofá da sala) e a minha fé no amor – coisa que eu adorava ostentar aos tantos desiludidos e que, hoje, infelizmente, entendo perfeitamente.

E não ouse me tentar me consolar dizendo que me deixou a geladeira que cospe gelo sem miséria e vitrola amarela, viu? Porque dançar Modern Love sozinho sobre o tapete da sala e sob efeito de caipirinhas de limão não faz o menor sentido agora. Pois quando foi, sabe-se lá como, conseguir colocar no Uno cor-de-fezes-de-gente-fitness também a coragem de mostrar a minha falta de malemolência que só aparecia diante de você, depois que segurava em meus pulsos e, com a voz enrolada, dizia-me: “Para de ser bobo, cabeção! A vida é rápida demais para ficar com vergonha de dançar feito um imbecil”.

Sabe o que é? Troco tudo que deixou por aquilo que, até hoje, eu não sei como conseguiu levar numa só viagem.