As mulheres não são complicadas

Perdi as contas das vezes que ouvi homens e, até mesmo mulheres, dizendo que as fêmeas são complicadíssimas. Basta alguns minutos em uma roda de “machos” para esbarrar com afirmações que comparam a mulher com fenômenos absolutamente imprevisíveis e com coisas impossíveis de serem compreendidas pela lógica racional. Certa vez, em um churrasco, ouvi um cara dizendo que é mais fácil antever a vinda de um tsunami sem instrumentos meteorológicos do que prever a mudança de humor de uma mulher. Tenho um amigo que se casou três vezes e que, mesmo depois de tantos matrimônios e anos de convivência intensiva com exemplares do sexo feminino, faz questão de declarar: “Quanto mais convivo com as mulheres, menos as entendo!”.

Eu mesmo, por influência do discurso repetitivo e generalista dos homens da minha família, já fui do tipo que insiste em colocar as mulheres no mesmo patamar de hipóteses nebulosas, como a existência de vida fora da Terra e a reencarnação. Porém, acredite se quiser, depois de muito observá-las com atenção extrema e real vontade de compreendê-las, hoje, sem medo, eu digo: entendê-las é bem mais fácil do que pintam por aí em clichês, bordões e piadas de bar. E, se quer saber, apesar das emoções visivelmente complexas e dos hormônios notoriamente capazes de influenciar atitudes, acho que as mulheres são seres bem mais fáceis de entender do que uma equação de terceiro grau.

O primeiro passo para entendê-las é o mesmo necessário para a compreensão de qualquer troço que desconhecemos. Antes de qualquer coisa, se quisermos mesmo saber aquilo que navega dentro da cabeça delas, precisamos parar de dizer “elas são um bicho de sete cabeças!”. Afirmar que você nunca as entenderá é um ótimo começo para continuar no breu da ignorância, sendo mais um dos tantos que preferem compará-las a coisas que nem Freud pode explicar.

A primeira coisa que precisa saber sobre elas é: a TPM é um espírito zombeteiro capaz de fazê-las agir de maneira irracional, multipolar e inesperada. Isso mesmo! Quando sua mulher mudar da água para o sangue, irmão, em vez de compará-la ao clima mutante do Brasil ou sugerir que ela tome remédios para bipolaridade, simplesmente aceite que ela, “naqueles dias”, agirá feito uma marionete instável e controlada pelos hormônios. Enquanto ela estiver sob efeito do furacão El Chico, apenas faça o possível para desviar das facadas e para conter as lágrimas que brotam do nada. Com carinho sincero e chocolates que derretem na boca é possível evitar as mordidas afiadas que buscam as zonas vitais, eu garanto.

A segunda e não menos importante coisa que tem de entender a respeito delas é: o que elas querem, de verdade, não é dinheiro. Também não são rosas nem aqueles cartões que já vêm com mensagens prontas e universais. É claro que o dinheiro, em um mundo capitalista como o nosso, poderá proporcionar experiências interessantes, carne de primeira e ambientes refrigerados. É óbvio que um belo buquê somado a um cartão genérico, apesar dos dizeres universais, fará com que ela sorria. Entretanto, o mais importante, sem dúvida alguma, são as demonstrações que enfatizam o quanto você a percebe como peça única em meio a esse extenso quebra-cabeça chamado população mundial. Entendeu? As flores são lindas, ninguém duvida disso, contudo, se optar por elas como presente, não deixe de utilizá-las como argumento para exposição do quanto você repara nas particularidades da sua mulher. Como fazer isso? Simples! Não deixe a vendedora da floricultura dizer qual flor você deve dar à moça que você ama. Escolha você aquela que fará com que ela pense: “Caramba, ele realmente prestou atenção quando eu disse que minha cor preferida é o lilás e quando eu parei para fotografar as orquídeas que brotaram numa árvore da minha rua!”.

Ela tem alergia a flores? Não se desespere. Você possui, ao seu alcance, diversas formas de mostrar a ela que a conhece bem e presta atenção nas minúcias dela. Como? Pedindo para o garçom desligar o ar condicionado do restaurante antes mesmo de ela dizer que está morrendo de frio, por exemplo. Já que sabe o quanto ela sente dor nos pés depois de usar salto quinze, que tal fazer uma massagem nos pés dela assim que chegarem em casa, depois do casamento e antes mesmo que ela tenha a chance de se queixar de cansaço? Não espere ela pedir, faça. Garanto que pequenas atitudes como essas farão com que ela se sinta compreendida ao seu lado.

Por fim, mostre que a entende, muitas vezes, mais do que ela mesma é capaz. Agora é a hora que me perguntará: “Como posso entendê-la mais do que ela mesma consegue, sem ser vidente ou cartomante?”. Saiba que olhá-la de fora, em muitos casos, permite uma percepção mais clara e nítida das características pessoais dela. É mais fácil entender um furacão quando não estamos rodopiando dentro dele, certo? A mesma lógica é válida no entendimento da sua mulher. Se olhá-la de longe perceberá, com clareza, sintomas que nem ela sabe expressar ou que – por vaidade, vergonha ou falta de autocompreensão – ela não assume ou nem sabe que tem. O genial poeta Paulo Leminski possui uma frase muito interessante: “Repara bem no que não digo”. Por isso, irmão, não hesite em prestar atenção no silêncio dela. Porque se realmente quiser captá-la, precisará de muito mais do que palavras e indícios mastigados.

O que as mulheres querem? Eu sei! Elas anseiam por demonstrações capazes de fazê-las se sentirem especiais e únicas. Elas não querem e nem esperam que repare nas imperfeições delas, mas querem que demonstre, com bilhetes particulares colados à geladeira e com beijos calmantes na ponta do nariz, que reparou naquilo que as torna diferentes do resto.

Captou a mensagem? Entender as mulheres não é tão difícil assim, é? Difícil mesmo é perceber quando elas cortam dois dedos do comprimento do cabelo. Complicado, de verdade, é entender o que o Stanley Kubrick quis dizer com o monólito negro voador que aparece no filme 2001: Uma Odisseia no Espaço. Sua mulher, meu velho, só quer fugir do plural e ser percebida graças às singularidades que carrega na passarela da vida.