Amigo também bate

Um grande camarada, que costumava me aplaudir em tudo, outro dia discordou de mim. “Você mandou muito mal, cara!”, ele afirmou após ouvir minha versão dos fatos. E aquilo, a princípio, pareceu-me uma punhalada. Doeu como a descoberta de um chifre, juro. “Até você?”, deu vontade de dizer. “Até você!”.

Hoje sei: o tapa que ele me deu foi pura demonstração de amizade, atitude de alguém que realmente se importa comigo e está interessado em contribuir à minha evolução. Hoje sei! E para as pessoas que ainda não sabem, e que só chamam de “amigo” quem delas nunca ousa divergir, escrevo este texto; para que percebam, finalmente, que amigo também bate; e que o inimigo, justamente por torcer pelo acontecimento de nossa tragédia, costuma aplaudir as cagadas que fazemos.

“Você está esmurrando ponta de faca, seu idiota! Não percebe?”, dirá aquele que torce pelo seu bem, tentando fazer com que acorde, finalmente. Já o inimigo, ao notar que seu sangue já começou a escorrer, vai se calar. Ou pior: tentará incentivá-lo a bater mais, mais, mais… Até ficar com os ossos expostos.

Quando alguém aponta o dedo àquilo que consideramos indubitável, nossa primeira reação, geralmente, é sentir raiva. Principalmente quando estamos repletos de verdades absolutas e cegos a ponto de não perceber que, muitas vezes, nossas convicções não passam de pontos de vista instigados pelo ambiente em que vivemos e, principalmente, pelo maldito orgulho que nos impede de encarar nossas crateras e tortuosidades. E antes mesmo de refletirmos acerca dos argumentos do outro, agimos como advogados de defesa que pouco se importam com os fatos porque querem, apenas, livrar a cara do cliente – nós, no caso.

“Você poderia ter falado de maneira mais educada ou evitado a discussão fazendo silêncio, simplesmente”, um parceiro lhe dirá ao notar seu olho roxo e dente bambo. E você, em vez de pensar no conselho recém-recebido, imediatamente começará uma busca desesperada – e patética – por justificativas capazes de glorificar os pontapés que deu; porque maior do que a dor física, com certeza, é a dor que sente quando se vê diante de suas imperfeições e percebe-se incapaz de cobri-las; a aflição que surge ao concluir que, apesar de macaco velho que vive a metralhar conselhos às novas gerações, vez ou outra, tem dificuldade de gerenciar suas emoções mais primárias. E se não conseguir convencê-lo – e se convencer – de que fez o certo ao perder o controle e rolar no asfalto da Rebouças feito um bicho, bufando, sairá à procura de outra pessoa disposta a lhe dizer: “Eu faria o mesmo” ou “Agiu bem”. E se não encontrar ninguém a fim de lhe dar o atestado que precisa, mudará um pouco o relato, omitindo os nomes que usou e incluindo elementos que incriminem o outro – ou a polícia que não interviu, ou o moço do carro de trás que desviou quando o tempo estava prestes a fechar, ou o remédio para ansiedade que se esqueceu de tomar, ou seu chefe que está acabando com sua vida, ou… Tudo menos você!

Porque precisa sair com a razão a todo custo, não é mesmo? Afinal, é só isso que parece importar hoje em dia, neste imenso debate virtual que o mundo virou – onde estar certo, e provar isso a todo custo, é mais importante do que o tema em questão e as consequências que a má compreensão dele pode gerar para o coletivo. Coisas do ego, manja? Do nosso demoninho de estimação que não nos deixa perceber que só é possível crescer quando encontramos as nossas falhas. Ou acha possível reparar algo cujo problema você nem sequer pode enxergar? Não, não é. E é por isso que eu volto ao início do texto e digo: agradeça se tem amigos dispostos a ajudá-lo a enxergar seus escorregões e peças com defeito. Agradeça-os ouvindo o que eles têm a dizer mesmo quando soltam palavras sem a maciez e facilidade de digestão que espera.

Já contei num texto antigo e faço questão de repetir: em 2013, quando eu já havia começado a receber muitos confetes pelos meus textos, um amigo – e escritor que já possuía o quíntuplo da minha experiência -, com todo cuidado do mundo, acabou com uns textos meus. Apesar da luva de pelica que ele usou para estapear meus filhos, foi tão duro que, num primeiro momento, eu confesso que cheguei a pensar em desistir. Depois de uma semana, contudo, percebi que havia sido presentado com uma oportunidade única para crescer, e nos três meses seguintes, acredite, eu evoluí como não havia conseguido nos anos anteriores, em todos eles. E se ninguém tivesse me mostrado aqueles clichês, frases pobres e personagens sem profundidade, ou se eu não tivesse dado ouvidos ao amigo que me queria voando mais alto, talvez eu estivesse na mesma, ou pior: achando aqueles textos geniais e sem necessidade de melhora. E ele não foi o único a estapear meus textos, não: escritores consagrados – um deles ganhador do Jabuti, inclusive – já me deram duras duras (com o perdão da aparente redundância); e apesar da ardência que geraram, percebi que se tratavam da matéria-prima perfeita para reforçar a minha canoinha e, quem sabe, torná-la capaz de me levar aonde desejo chegar – e não é logo ali, não, viu? Tenho sonhos que às vezes parecem nem caber em mim.

Crescer dói, essa que é a realidade. Uma dor inevitável – e necessária – que começa quando nós, arrogantes grãozinhos que se sentem os maiores diamantes da parada, notamos o quão miúdos somos; e isso raramente acontece sem a ajuda de gente que nos ama, acredite.

Não que os elogios não sejam importantes, né? Eles nos dão motivação para seguir e blábláblá… Mas sem as críticas (as construtivas e tecidas com respeito e educação, vale ressaltar) estamos fadados um acreditar num sucesso mentiroso que barrará qualquer chance de sucesso verdadeiro.

Amigos de verdade, obrigado pelos murros que me ajudaram a enxergar e, consequentemente, a superar meus muros. É isso.