Acordei querendo uma camisa florida

Acordei querendo uma camisa florida. Logo eu, que sempre me vesti de preto e cinza. Logo eu, que sempre paguei um pau para o Johnny Cash.

A princípio, bateu uma preocupação. “Será que há algo de errado comigo?”, cheguei a pensar enquanto analisava (no Google) peças cheias de rosas, orquídeas, palmeiras e outros tipos de vegetais. Senti-me culpado também. Afinal, estava a apenas alguns cliques de chifrar o guarda-roupa monocromático que venho cultivando desde o dia em que minha mãe parou de escolher as minhas roupas. Depois, porém, após medir minha temperatura e constatar que aquele desejo não se tratava de um delírio febril, concluí: estou em constante processo de reinvenção, apenas isso.

Sou – e pretendo continuar sendo! – uma “metamorfose ambulante”, como bem dizia o Raulzito. E poucas coisas são mais bonitas do que aprender a dar espaço aos novos “eus” que vivem a pipocar dentro de mim, agora eu sei – depois de muito barrá-los por causa de um apego bobo à mesmice e por achar que eu precisava manter certas palavras mesmo não acreditando mais nelas.

Termos e contratos que me obrigam a permanecer imutável durante toda a vida? Nunca assinei. E se um dia alguém tentar me obrigar a fazer uma insanidade do tipo, já vou logo avisando: vou me debater como fiz no meu primeiro exame de sangue, com cinco anos, quando meu pai e dois enfermeiros não foram capazes de conter meus estrebuchos. Vou distribuir pontapés sem dó, para tudo quanto é lado, e só vou parar quando entenderem, de uma vez por todas, que tenho o direito irrefutável de mudar quantas vezes eu quiser, mesmo depois que os engessados convictos, que fazem de tudo para não renascerem, afirmarem: “Já gastou sua cota de transformação, não acha? Já está velho demais para se reinventar!”.

Mudar, mudar e mudar, é isso que pretendo fazer! E não apenas de estilo de camisa e corte de cabelo, viu? Mas também de casa, paixões, venenos e opinião. Afinal, se não for para nos transformar – às vezes destruir, às vezes lapidar -, então, para que serve o tal do tempo? Para me consumir um pouco mais a cada nova volta do ponteiro do relógio, somente? Não acredito. Não agora, após perceber que já fui vários e que, mesmo assim, ainda tenho fôlego para ser muitos outros se o tempo me permitir. Amanhã ou depois, talvez eu mude de ideia. E se mudar, como já fiz centenas de vezes antes, tudo bem.

Só não posso ser imbecil a ponto de continuar vestindo ideias e camisas que já não conseguem me traduzir mais, compreende? Quero, mais do que nunca, doses e mais doses da coragem necessária para enfrentar de peito estufado e cabeça arguida o arrependimento que as mudanças podem gerar. Mais do que isso: quero mudar e, se achar que fiz merda, ser capaz de vencer o orgulho que fará de tudo para não me deixar voltar atrás. Preciso, antes mesmo de sair por aí de coberto de flores e de chapéu panamá, mudar o pedaço de mim que insiste em berrar: “Você deve permanecer igual, sempre!”.

Por que não mudar do café para o chá e de Sampa a Floripa?”, pergunto-me. E mudo eu fico – o que me faz concluir que é hora de (me) mudar, mais uma vez.